Convite à escrita

Call for papers - Convite para envio de artigos para publicação
Revista de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre
Volume temático: SOBRE O MASCULINO
Estimada/o colega,
O próximo número da Revista, Sobre o masculino, remete a tantas e tão variadas possibilidades de abordagem que poderíamos pensá-lo no plural, nos tantos masculinos evidenciados pelas transformações dos tempos atuais.
Falar sobre o masculino implica adentrar na história da sexualidade humana que, como explica André (2025) é descontínua, impossível de ser contada em uma linha evolutiva cujo caminho vai da repressão mais implacável à emancipação total.
Não há muito tempo, atribuía-se aos homens o trabalho e o sustento e às mulheres as lides domésticas e o cuidado dos filhos, expressão de uma ordem androcêntrica que dava forma à sexualidade e à subjetividade. Nesse sentido, como propõe Deleuze (1998), o masculino ocuparia o lugar molar do poder simbólico dominante, enquanto mulheres e crianças percorreriam “devires-minoritários”, abertos a possibilidades de transformação.
Diante das intensas mudanças contemporâneas, cabe perguntar se não estamos assistindo a um deslocamento dessa forma, com o masculino passando por revisões em seus papéis, representações e modos de existir. O que permanece na subjetividade masculina e o que a transcende quando o tema é pensado no contexto da indissociabilidade entre constituição psíquica e os reordenamentos da cultura?
Segundo Eizirik (1998), masculinidade e feminilidade referem-se a um complexo de crenças sobre as diferenças anatômicas, articulado às fantasias inconscientes e à relação com o sexo biológico. Incluem identidade de gênero, papéis, escolha de objeto e comportamentos culturais. O autor destaca três dimensões: identidade de gênero nuclear, comportamento sexual fantasiado e atributos culturalmente definidos.
Os textos de Freud inauguram a compreensão do masculino como um processo não linear, afastando qualquer ideia de definição fixa ou origem estável. O masculino não é dado de antemão, mas se constitui por meio de conflitos, identificações e perdas, em relação à castração, ao desejo, à lei e à alteridade.
Com a noção de sexualidade infantil em Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud (1905/1972) rompe com a redução do masculino à anatomia, propondo uma sexualidade e a hipótese de uma bissexualidade psíquica originária. Assim, o desenvolvimento masculino implica um percurso complexo, no qual o sujeito precisa elaborar a diferença sexual, deslocar seus investimentos iniciais e se identificar com a função paterna como representante da lei.
Os desenvolvimentos psicanalíticos, a partir de Freud, têm aprofundado e reforçado a ideia de uma estrutura psíquica que se ancora sobre certas bases imutáveis, como, por exemplo, a interdição estruturante (Freud) e a Lei do Pai (Lacan), fatores estes que retiram o sujeito do autoerotismo e do narcisismo, encaminhando-o ao predomínio genital, organizado ao redor da subordinação das pulsões e das identidades secundárias. Os tempos atuais parecem estar afetando a estrutura do edifício simbólico.
Várias são as possibilidades de análise: novos enredos familiares; a retirada narcísica dos investimentos no outro, cada um se relacionando com seu próprio espelho/tela; a grupalidade adolescente recrutada para o celibato (incel); o temor de ser ridicularizado ou rejeitado, ingredientes que podem levar todo menino à cooptação algorítmica de sites misóginos; a ilusão dos jovens, que creem estar em relação com o mundo quando estão se relacionando com o vazio das redes sociais; o declínio da castração, da relação humana, a ausência da função paterna, da figura homem-pai e ideais viris.
Alizade (2009) pontua a transformação cultural modificando o roteiro dos homens através dos reordenamentos histórico-sociais. O movimento feminista, surgido na esteira dos conflitos mundiais do século XX, introduz a discussão da subordinação feminina e a dominação masculina impregnada pelo secular discurso patriarcal. Em sua radicalidade, o efeito de suspensão da subserviência aos padrões culturais de virilidade não termina por suspender também o lugar da lei, da interdição, tão necessário para a estruturação psíquica?
Tem se mostrado relevante incluir no debate as questões relativas às transidentidades e aos processos de redesignação sexual, que ampliam e tensionam os referenciais tradicionais de masculinidade, bem como a revisão de polaridades clássicas – como ativo e passivo –, abrindo espaço para modos mais plurais de posicionamento subjetivo. Neste contexto, consideram-se ainda os novos arranjos de parentalidade, que deslocam modelos estabelecidos e introduzem outras formas de cuidados, presença e função paterna, com efeitos na constituição psíquica.
Ao mesmo tempo, a clínica contemporânea tem evidenciado a centralidade do desamparo e da agressividade na constituição do masculino, frequentemente articulados a impasses no campo vincular e dificuldades na relação com o feminino, por vezes expressas em dinâmicas de controle, ataque ou rejeição. Por sua vez, interessa-nos também explorar as potencialidades e aberturas presentes nas transformações atuais, reconhecendo nelas não apenas sinais de crise, mas possibilidades de reinvenção dos modos de ser, de se relacionar e de simbolizar.
O que é, afinal, o masculino? Como os desenvolvimentos teóricos têm nos subsidiado frente a esse contexto de transformações? O que observamos na clínica psicanalítica?
Desejamos que a/o colega sinta-se motivado e desafiado a expor suas teses, ideias, reflexões, experiências e questionamentos a respeito do tema proposto.
As diretrizes para Submissão encontram-se em nosso site: Diretrizes para Submissão.
Caso tenha alguma dúvida ou necessite de mais informações, não hesite em entrar em contato por e-mail, revista@sppa.org.br ou pelo telefone +55 51 984870158 (WhatsApp) com a bibliotecária Eunice Schwaste.
Aguardamos sua contribuição até 15 de julho de 2026.
Atenciosamente,
Ana Cristina Pandolfo
Editora Chefe
Karem Caineli
Regina Orgler Sordi
Tiago Crestana
Editores Associados
Referências
Alizade, A. M. (2009). Cenários masculinos vulneráveis. In Jornal de Psicanálise, 42(77), 187-205.
Andre, J. (2025). A sexualidade masculina. Porto Alegre: Blucher, SPPA.
Deleuze, G. (1998). O abecedário. Paris: Ed. Montparnasse.
Eizirik, C. (1998). Masculinidade e feminilidade na virada do milênio: uma breve reflexão psicanalítica. In Revista de Psicanálide da SPPA, 5(2),165-171.
Freud, S. (1972). Três ensaios sobre a sexualidade. In Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud (Vol. 7, pp.122-250). Rio de Janeiro, Imago. (Trabalho original publicado em 1905)




